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18/06/2026 16:04:31

Açúcar ou proteína? O que diferencia a intolerância à lactose da alergia ao leite

Especialistas do CEJAM explicam por que confundir as duas e cortar o leite por conta própria pode trazer riscos


São Paulo, junho de 2026 - Estima-se que cerca de 65% da população mundial tenha alguma redução na capacidade de digerir a lactose depois da primeira infância, segundo a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (NIH/MedlinePlus). No entanto, embora a expressão "intolerância à lactose" tenha virado quase um sinônimo para qualquer desconforto após um copo de leite, nem todo mal-estar diante de um derivado lácteo tem a mesma origem, e tratar ambas as condições com a mesma abordagem pode trazer riscos reais, especialmente para os mais novos. 

Segundo a Dra. Aline Ferrão, médica da família e comunidade da UBS Jardim Santa Margarida, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) e gerenciada pelo CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim", a confusão tem uma explicação simples. "As condições são frequentemente confundidas porque geram reações após o consumo de leite ou derivados", resume.

 Porém, as duas seguem caminhos completamente diferentes. "Na intolerância à lactose ocorre uma deficiência da enzima lactase, que digere a lactose, açúcar presente no leite. Na alergia à proteína do leite ocorre uma resposta imune contra as proteínas presentes no leite", explica a médica. 

Essa diferença de origem se reflete no perfil de quem é afetado. "A intolerância à lactose é mais comum em crianças maiores, adolescentes e adultos, enquanto a alergia ocorre mais em lactentes", afirma.  

Não por acaso, a alergia está entre as mais frequentes no início da vida dentro do grupo alimentar. Dados reunidos pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) e pela Sociedade Brasileira de Pediatria estimam que a alergia à proteína do leite de vaca atinja em torno de 2% a 3% das crianças nos primeiros anos de vida. 

A médica ainda explica que a quantidade que o organismo suporta também separa os dois quadros. "Na intolerância à lactose pequenas doses costumam ser toleradas, enquanto na alergia mesmo pequenas quantidades geram reações", completa.      

Os sintomas ajudam no diagnóstico da complicação. Na intolerância, eles aparecem entre 30 e 60 minutos após o consumo e ficam concentrados no aparelho digestivo, como dor e distensão abdominal, gases, náuseas e diarreia. Já na alergia, os sinais podem surgir de minutos a horas depois da ingestão, apresentando vermelhidão e coceira na pele, inchaço em lábios e pálpebras, urticária, além de sintomas digestivos e respiratórios, como tosse, chiado no peito e falta de ar. 

Dra. Aline aponta que é justamente nesse aspecto que está o alerta.  Ela chama a atenção para sinais que configuram urgência e precisam de atendimento imediato, sobretudo em crianças: sangue nas fezes, perda de peso ou ganho abaixo do esperado, vômitos persistentes com desidratação, atraso no desenvolvimento e dor abdominal intensa, assim como falta de ar, inchaço na língua, dificuldade para engolir, tontura ou desmaio.  O diagnóstico, segundo a médica, começa por uma conversa detalhada. Na atenção primária, investiga-se quais alimentos provocam os sintomas, quanto tempo depois eles aparecem, a idade de início, o histórico familiar e a presença de asma, rinite ou dermatite. Exames como o teste de tolerância à lactose, a dosagem de IgE específico e a exclusão seguida de reintrodução do alimento ajudam a confirmar a suspeita.  

      

O perigo de cortar o leite por conta própria 

A tentação de simplesmente eliminar o leite da rotina quando surge o desconforto é grande, mas também apresenta riscos. "A retirada do leite por conta própria e sem orientação pode levar a deficiências nutricionais, podendo comprometer o crescimento e desenvolvimento ósseo", adverte a profissional. 

Segundo Alice Coca, nutricionista da UBS Jardim Paranapanema, unidade da SMS-SP e também gerenciada pelo CEJAM, o manejo de cada caso é diferente. Na intolerância, normalmente basta reduzir ou retirar a lactose e, quando necessário, repor a enzima.  

Já na alergia à proteína do leite, que atinge majoritariamente bebês com menos de dois anos e pode ser mais grave, é preciso ajustar a dieta da pessoa lactante, excluir totalmente o leite e os derivados e recorrer a fórmulas especiais de aminoácidos livres ou extensamente hidrolisadas, uma vez que o uso de fórmulas de soja a menores de seis meses é uma prática contraindicada pela Sociedade Brasileira de Pediatria.            

"Outro erro é retirar todo leite da dieta sem colocar substitutos adequados, levando a carências nutricionais que podem agravar o quadro", alerta.  

Quando o leite precisa sair do prato, manter o aporte de cálcio, proteínas e vitamina D vira um desafio. Para crianças em fase pré-escolar e escolar com intolerância, Alice orienta a substituição por leites sem lactose ou bebidas vegetais, como soja, arroz, aveia e amêndoas. Nos casos de alergia, são indicados extratos vegetais ou compostos infantis à base de arroz ou soja, sempre de acordo com a faixa etária. "É imprescindível um acompanhamento nutricional periódico, não sendo indicado fazer dietas por conta própria", afirma. O ideal é manter um cardápio variado, com verduras, legumes, frutas, leguminosas, ovos, carnes, peixes e aves, recorrendo a extratos vegetais com menos aditivos quando for o caso. 

A orientação final das duas especialistas converge para um mesmo ponto: nem a intolerância à lactose nem a alergia à proteína do leite devem ser diagnosticadas ou tratadas no improviso. Diante de sintomas frequentes, o caminho seguro é procurar avaliação médica e acompanhamento nutricional periódico, garantindo que a retirada de um alimento não abra espaço para outros problemas.      

 

Sobre o CEJAM  

O CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim” é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos. Fundada em 1991, a Instituição atua em parceria com o poder público no gerenciamento de serviços e programas de saúde em São Paulo, Rio de Janeiro, Mogi das Cruzes, Osasco, Campinas, Carapicuíba, Barueri, Franco da Rocha, Guarulhos, Santos, São Roque, Lins, Assis, Ferraz de Vasconcelos, Pariquera-Açu, Itapevi, Peruíbe e São José dos Campos.  

A organização faz parte do Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (IBROSS), e tem a missão de ser instrumento transformador da vida das pessoas por meio de ações de promoção, prevenção e assistência à saúde.  

O CEJAM é considerado uma Instituição de excelência no apoio ao Sistema Único de Saúde (SUS), tendo conquistado, em 2025, a certificação Great Place to Work. O seu nome é uma homenagem ao Dr. João Amorim, médico obstetra e um dos fundadores da Instituição.  

Neste ano, a organização lança a campanha CEJAM 2026: respeito à vida, respeito ao planeta. 365 dias cuidando do presente, transformando o futuro!  

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