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07/04/2020 08:52:16

CIENTISTA DE PATO BRANCO ATUA EM GRUPO DE PESQUISA CONTRA A COVID–19 NA BÉLGICA

  

Os núcleos científicos do mundo todo estão em uma corrida desenfreada para conter a Covid-19, cepa do coronavírus que se tornou pandemia nos cinco continentes e, diariamente, ceifa a vida de milhares de pessoas. Um dos filhos de Pato Branco faz parte de um instituto que trabalha na busca por essa solução. João Paulo Portela Catani é PhD pela Faculdade de Medicina da USP, e atualmente é cientista pós-doutor no Vlaams Instituut voor Biotechnologie (VIB), na Bélgica, que desenvolve uma pesquisa voltada ao SARS-COV-2. Catani conta que seu atual tópico de pesquisa é o vírus da gripe, mas, antes, desenvolveu um projeto de vacina contra o Zika. “O trabalho voltado para o SARS-COV-2 é recente, uma iniciativa que começou no fim de Janeiro.

Foi um grupo de resposta com 17 integrantes montado pelos professores Xavier Saelens e Nico Callewaert, para tentar suprir a urgência da pandemia”, explica. O estudo envolve ainda uma rede de colaboração internacional, com grupos de pesquisa nos EUA e Alemanha. Apesar de a iniciativa ter partido dos docentes, os principais atores do laboratório neste trabalho são a doutora Dorien De Vlieger e doutor Bert Schepens.

Dorien havia selecionado, durante sua tese de doutorado, anticorpos de lhama que eram capazes de neutralizar o SARS-COV-1. No atual trabalho esse anticorpo foi otimizado para neutralizar também o novo SARS-COV-2, o coronavírus responsável pela covid-19. “Com o surgimento da pandemia causada pelo SARS-COV-2, o doutor Bert Schepens teve iniciativa de testar a habilidade desse anticorpo em neutralizar o vírus causador do COVID-19.

O grupo de trabalho montado para reagir contra a pandemia foi extremamente eficiente e, em pouco tempo, otimizou o anticorpo”, afirma. Os resultados estão disponíveis em https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.03.26.010165v1.full.pdf A descoberta seria uma cura? O anticorpo, explana Catani, é de propriedade intelectual do instituto, que não financia testes em humanos.

Mas a patente cria condições para isso. Nesse caso, geralmente a molécula é licenciada para uma empresa -- em geral se constitui uma spin-off --, e essa empresa arrecada investimentos do mercado para desenvolver a droga para aplicação clínica. “O estudo é muito recente, não há previsão para testes. Ainda são muitos passos até a eficácia de uma molécula ser comprovada e disponibilizada para o tratamento. Contudo, após a devida avaliação, o anticorpo pode ser uma opção viável para o tratamento da covid-19”, acredita o cientista.

No entanto, precisar quanto tempo levaria até que o estudo se transformasse em tratamento é uma informação que só pode ser levantada após ensaios clínicos. “Esses ensaios são difíceis, muito rigorosos. Não se pode correr contra o tempo. Apesar da urgência, a regulamentação e todos os cuidados precisam ser respeitados. Não se pode colocar a carroça na frente dos bois”, diz. “Um exemplo clássico”, lembra Catani, “é o da cloroquina ou hidroxicloroquina.

Essa droga já havia sido testada contra a epidemia de Ebola e não funcionou. Também foi testada contra Chikungunya e de fato piorou a infecção. Nem sempre o resultado obtido 07/04/2020, em células no laboratório, é confirmado posteriormente, nos modelos animais ou ainda em ensaios clínicos”, resume. O cientista lembra ainda que existem muitas iniciativas, tanto para desenvolvimento de vacina como para seleção de possíveis moléculas terapêuticas, na tentativa de uma solução à pandemia. “A comunidade científica no setor privado e público está se esforçando muito para encontrar uma solução o mais rápido possível, mas até que os primeiros resultados sejam obtidos o único ‘remédio’ é redução do contato social”. Cenário político-científico Catani afirma que “a covid-19 não é uma gripezinha, e deve ser tratada com extrema seriedade. Já temos o exemplos da Itália e Espanha, e é claríssimo o que pode acontecer no Brasil.

O próprio presidente americano, que inicialmente subestimou a pandemia, está agora correndo atrás do tempo perdido, o que deve resultar em cerca de 200 mil mortes”, esclarece. Além do pico atual, explica o cientista, a infecção deve voltar em ondas no futuro, exigindo novas medidas de restrição de contato social. “Essas novas quarentenas devem ser localizadas e de menos rígidas. Esse é um cenário que pode durar meses. Muitos serviços e setores da nossa economia precisarão ser reinventados para o período da pandemia e possivelmente manterão essas mudanças no futuro”.

O cientista também destaca que esse é um momento que coloca em evidência a importância da ciência em nossa sociedade. “A ciência é tão subvalorizada em um país como o Brasil, e nessa hora não é nenhum político que vai entregar a solução para a covd-19. Quem vai fazer isso é o cientista mal pago e desvalorizado e que estava desenvolvendo sua pesquisa já há muitos anos em alguma universidade pública, como foi no caso do ZIKA, com o trabalho excepcional de pesquisadores brasileiros”, lamenta.

Comentando sobre o modelo do VIB, onde trabalha, ele esclarece que se trata de um instituto público, que protege toda tecnologia que ali é gerada. “O governo Belga investe cerca de 40 milhões de euros por ano no instituto. Em contrapartida, o instituto gera riqueza em termos de tecnologia, e já atraiu mais de 700 milhões de euros em investimentos, além dos valores arrecadados com licenciamentos das tecnologias desenvolvidas aqui. Todo esse sistema depende da geração de propriedade intelectual”, conta. Para ele, a sociedade brasileira deveria valorizar mais esse setor, “e, por exemplo, dar suporte a agentes públicos que suportem uma agenda séria de desenvolvimento tecnológico. Para ser mais claro, vote em quem valoriza e respeita a ciência, ou, sendo utópico, em quem usa a ciência para governar”, finaliza.

Por Mariana Salles

DIARIO DO SUDOESTE

 




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